‘Falsa humilde’: Lula xingava ministros do STF na prisão, diz agente da PF
Em livro, carcereiro dos 580 dias em Curitiba relata ataques do petista a Cármen Lúcia, Fachin e Fux, ministros que ele e Dilma levaram ao Supremo
O presidente Lula chamava a ministra Cármen Lúcia de “falsa humilde” e de “miserável” enquanto esteve preso na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba. O relato é de Jorge Chastalo Filho, agente da PF que cuidou da carceragem do petista, no livro “Banho de sol: os 580 dias da prisão de Lula”.
Segundo o agente, os ataques não pararam em Cármen. Edson Fachin, hoje presidente do STF, era chamado de “filho da puta” e de “comedor de hóstia”. Luiz Fux virou “esse canalha”.
Os três têm algo em comum: chegaram ao Supremo pelas mãos do PT. Cármen foi indicada pelo próprio Lula, em 2006. Fux e Fachin, por Dilma Rousseff.
Como Lula xingava ministros do STF na prisão
Lula ficou preso de abril de 2018 a novembro de 2019, condenado na Lava Jato. Chastalo diz que as conversas com o preso eram quase sempre sobre política.
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A frase sobre Cármen Lúcia, segundo o livro, é de julho de 2018. “A Cármen é uma falsa humilde, Chastalo”, teria dito Lula. O petista lembrou o pedido de indicação da ministra, em 2006, quando ela falou em gratidão e no pai. Lula admitiu que “caiu nessa”.
“Agora está aí, insegura, fazendo merda”, completou, sorrindo, de acordo com o agente. Em outra conversa, contou: “Fui dormir cedo ontem, com um ódio muito grande da Cármen Lúcia”. Segundo o relato, voltou a cobrar a ministra por ela “falar em gratidão” e a chamou de “miserável”.
O relato expõe o que Lula esperava de quem indicou: a promessa de gratidão feita em 2006 virou cobrança na cadeia, quando a ministra não decidiu a favor dele.
Fachin entrou na mira depois de tirar de pauta o habeas corpus que pedia a soltura de Lula. “Esse Fachin é um filho da puta mesmo, Chastalo”, reagiu o petista, segundo o livro. Lula disse que não teria indicado o ministro porque não confiava nele, e que a escolha foi de Dilma. “Eu achava ele um comedor de hóstia, um desses religiosos que comem hóstia hoje, mas fazem merda amanhã.”
Sobre Fux, o relato é de desconfiança antiga. Lula conta que o ministro frequentava cerimônias no Planalto em campanha por uma vaga. “Mas nunca confiei nele”, disse. “Aí veio a Dilma e acabou nomeando esse canalha.”
Luís Roberto Barroso também aparece. Segundo o agente, Lula dizia que o ministro “era advogado da Rede Globo”.
Os poupados e o ‘boi do cu branco’
Nem todos apanhavam. Chastalo afirma que Lula via Gilmar Mendes e Celso de Mello como exceções na Corte, ministros com coragem.
Para o resto, o petista tinha uma expressão. Chamava de “boi do cu branco”. Explicou ao carcereiro que “o termo é utilizado quando um touro é covarde” e que “muitos membros do STF são assim”.
O retrato contrasta com o discurso público de Lula depois de solto. O mesmo STF que ele xingava na cela anulou suas condenações em 2021, numa decisão do próprio Fachin. Desde então, o petista se apresenta como defensor da Corte e das instituições.
O livro
“Banho de sol” sai pela WMF Martins Fontes, com 592 páginas. O jornalista Juca Kfouri participou da articulação do projeto. A editora segurou o lançamento até o fim do processo eleitoral.
Além dos ataques aos ministros, o agente narra os bastidores da prisão. Conta que a transferência para Curitiba exigiu três dias de planejamento e quatro planos operacionais. “Naqueles dias, não acreditávamos que Lula realmente seria preso”, escreve.
Chastalo diz ainda que encomendava a comida do preso em um restaurante por precaução. “Imaginei a possibilidade de alguém querer envenenar sua comida”, relata. A cela tinha cama de solteiro, mesa, cadeira e armário. O pátio do banho de sol, com paredes de dois metros, foi comparado por Lula a uma jaula.
O livro deixa registrado, por quem esteve ao lado dele todos os dias, o que o presidente dizia em privado sobre a Corte que hoje defende em público.
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