Lula admite que economia precisa ser ‘arrumada’ para atrair investimento
Na volta ao Planalto depois da reeleição, presidente diz que ninguém investe em economia 'totalmente desordenada'; ajuste fiscal segue sem medidas definidas
O presidente Lula (PT) admitiu nesta quinta-feira (5) que o Brasil precisa de “uma economia arrumada” para atrair dinheiro de fora. “Ninguém vai querer vir fazer investimento numa economia totalmente desordenada”, disse, no Palácio do Planalto.
A fala foi feita na 1ª reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce). Lula cobrou “responsabilidade jurídica” e “responsabilidade fiscal” como condição para o capital privado entrar na mineração.
O recado veio na primeira agenda do presidente no Planalto desde a vitória no 2º turno, em 25 de outubro. E chega num momento em que o mercado cobra do governo um ajuste nas contas públicas que, até agora, não saiu do papel.
O que Lula disse sobre economia arrumada e investimento
No discurso, Lula reconheceu que o investidor não aposta no país por simpatia. “Ninguém vai colocar dinheiro aqui por causa dos belos cabelos do Lula e do Alckmin”, afirmou.
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Segundo o presidente, quem traz recursos quer saber se o governo está “falando sério”. Ele disse que o Estado não pretende ser o “senhor supremo” da exploração e da industrialização dos minerais e que o governo quer parceiros privados, nacionais e estrangeiros, para “trabalhar conosco”.
Lula também afirmou que não quer deixar “buraco nas cidades” e que os ganhos da mineração precisam chegar às comunidades. Ainda usou o palco para comemorar a reeleição: disse que a escolha dos eleitores “valeu a pena”.
O conselho aprovou uma lista de 27 minerais e grupos de substâncias que terão prioridade na política industrial, com terras raras, lítio, grafita, níquel e urânio no topo. Também aprovou o regimento interno. A primeira reunião havia sido prometida para setembro e atrasou.
Ajuste fiscal prometido continua sem medidas
A defesa da “economia arrumada” contrasta com o que o próprio governo apresentou até aqui. Na mesma quinta-feira, segundo a equipe econômica, não houve definição de nenhuma medida específica de ajuste. As propostas só devem ser divulgadas depois que Lula voltar da COP31, na Turquia.
Dois dias antes, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que os temores do mercado são injustificados e que o governo prepara um ajuste “gradual”, que respeita os compromissos de campanha. “O projeto que o presidente Lula apresentou e saiu vitorioso das urnas é um projeto generoso com o País”, afirmou.
O pano de fundo é a preocupação com a trajetória da dívida pública. Na véspera da reunião, na quarta-feira (4), o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, um dos juros mais altos do mundo, e o custo do dinheiro segue travando o crédito e o investimento.
Dentro de casa, o presidente enfrenta resistência. Integrantes do próprio PT criticam a política do Banco Central e se opõem a um ajuste fiscal mais rigoroso, o que coloca a fala de Lula em choque com a base do partido.
Setor privado pede regra estável
Na reunião, o representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Avila Nóbrega, pediu regras estáveis e previsíveis. Lembrou que os projetos de mineração têm alto risco, grande porte e longo prazo para dar retorno.
A insegurança não é só fiscal. O Cimce poderá analisar operações societárias, transferências de títulos minerários e investimentos estrangeiros no setor, ponto criticado pela iniciativa privada. Até agora, o governo não definiu como será essa triagem: não há valor mínimo para análise nem prazo para o conselho decidir.
O que vem depois
O tema da triagem volta à pauta na 2ª reunião do conselho, a partir de 20 de novembro, e as regras sairão por decreto. Na área fiscal, o pacote de medidas ficou para depois da viagem de Lula à COP31. Até lá, o presidente que pede economia arrumada segue sem dizer onde vai cortar.
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