Ir para o conteúdo

Território Segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Economia

Lara Resende propõe Selic a 7,5% e expõe racha no PT a dois dias do Copom

Economista quer conselho para ditar juros ao Banco Central; Gabrielli e Gleisi aplaudem, Durigan nega agenda com Lula e Edinho Silva tenta conter o estrago

Lara Resende propõe Selic a 7,5% e expõe racha no PT a dois dias do Copom
Reprodução/Poder360

O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, propõe derrubar a Selic de 13,75% para 7,5% ao ano em cerca de 12 meses. Para isso, quer criar um novo órgão, o Conselho Fiscal e Monetário Nacional, que fixaria metas de inflação e também a própria taxa de juros com quatro a cinco anos de antecedência.

A ideia ganhou peso político nesta segunda-feira (2). A notícia de que Lula receberia o economista em Brasília nesta semana, às vésperas da reunião do Copom, abriu uma disputa dentro do próprio governo. Aliados históricos do presidente abraçaram a proposta. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, correu para negar que exista qualquer encontro marcado.

O mercado financeiro reagiu com críticas ao que analistas tratam como um tabelamento da Selic. O Comitê de Política Monetária do Banco Central decide os juros na quarta-feira (4).

O que propõe Lara Resende para a Selic a 7,5%

A proposta está no artigo “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos”, publicado por Lara Resende em 25 de setembro. O título já diz o tom. “Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica”, escreve ele, “a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”.

Publicidade

Pelo plano, o Banco Central anunciaria uma queda gradual da Selic até a meta em 12 meses. O número de 7,5% sai de uma conta: uma faixa entre a meta de inflação, de 3%, e o crescimento nominal potencial do PIB, que o economista estima “em torno de 5,5% ao ano”, somada a uma folga de segurança de 2 pontos percentuais. Essa folga “seria periodicamente reavaliada e reduzida até ser eliminada”.

Para segurar o dólar caso a moeda dispare, Lara Resende aposta nas reservas internacionais. “Com US$ 350 bilhões de reservas, o BC tem munição de sobra para isso”, afirma.

O economista vai além e contesta a base da política monetária. “A alta dos juros não reduz a inflação; ao contrário, se não houver uma contração fiscal simultânea irá elevar a inflação”, diz no texto. Em entrevista, foi mais direto: “A taxa de juros no Brasil é alta porque o Banco Central mantém a taxa de juros alta. Só por isso.”

O rombo que a proposta escancara

O argumento central é o custo da dívida pública. Lara Resende calcula que levar o custo médio do endividamento para 7,5% pouparia cerca de 4% do PIB por ano em juros.

A conta revela o tamanho do buraco. Segundo o próprio economista, o corte faria o déficit fiscal nominal cair “de mais de 10% do PIB para algo em torno de 6% do PIB”. Ou seja: mesmo no cenário dos sonhos da ala heterodoxa, o governo continuaria gastando muito além do que arrecada.

A proposta não fala em corte de gastos. Transfere para os juros, e para o Banco Central, a culpa por um desequilíbrio que o governo Lula não enfrentou.

Gabrielli e Gleisi aplaudem; Fazenda corre para negar

A reação mais entusiasmada veio do núcleo petista. José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa de governo da campanha de Lula, distribuiu nesta segunda um texto de 11 páginas em defesa da ideia. “Que bom que o debate se estabeleceu e aparentemente não há mais a onipresença do pensamento único. Viva a democracia!”, escreveu.

A ex-ministra Gleisi Hoffmann foi mais longe. Disse que o artigo é “fundamental para enfrentar essa ofensiva terrorista” do mercado contra a agenda fiscal do governo.

A Fazenda tentou apagar o incêndio. “É um tema fático. Não existe agenda marcada entre o presidente Lula e André Lara Resende”, disse Durigan em entrevista. “Não estamos discutindo nenhuma proposta do André Lara Resende para levar ao presidente.”

O presidente do PT, Edinho Silva, também saiu em socorro do ministro: “O único que fala em nome do governo Lula na política econômica é o ministro Dario Durigan.” A frase, dita no mesmo dia em que Gabrielli e Gleisi endossavam o plano, expõe que o partido não fala a mesma língua sobre juros.

Copom decide na quarta sob pressão política

A divisão chega no pior momento. O Copom se reúne nesta semana com a Selic em 13,75% e o mercado atento a qualquer sinal sobre a política fiscal e a futura equipe econômica.

Governo e PT elevaram o tom contra o mercado financeiro a dois dias da decisão. Com o coordenador do programa de Lula defendendo juros fixados por um conselho político e a principal liderança do partido chamando o mercado de “terrorista”, o recado que chega ao Banco Central é de pressão. Na quarta-feira, o Copom dirá se cede a ela.

Redação Território
Redação Território

Publicidade

Usamos cookies para medir a audiência do portal e para exibir publicidade. Enquanto você não responde, a publicidade fica não personalizada. Recusar não fecha nada do site. Detalhes na Política de Privacidade.