Governo Lula vê dívida pública federal subir R$ 90 bi em setembro e chegar a R$ 9,38 tri
Juros respondem por 99,2% da alta do mês; no ano, a dívida já cresceu R$ 747,9 bilhões, enquanto aliados do presidente travam o ajuste
A Dívida Pública Federal (DPF) subiu R$ 90,22 bilhões em setembro e chegou a R$ 9,38 trilhões. Em agosto, o estoque era de R$ 9,29 trilhões. A alta de 0,97% em um único mês consta do Relatório Mensal da Dívida, divulgado pelo Tesouro Nacional na quinta-feira (29).
Quase tudo veio dos juros. Foram R$ 89,46 bilhões de juros apropriados no mês, 99,2% do aumento. A emissão líquida de títulos somou só R$ 760 milhões. Ou seja: o governo não precisou ir ao mercado para a dívida crescer. Ela cresce sozinha, puxada pelo custo de carregar o que já deve.
No ano, a conta é ainda mais pesada. Desde dezembro de 2025, quando estava em R$ 8,64 trilhões, a dívida avançou R$ 747,9 bilhões, alta de 8,7% em nove meses.
Juros explicam 99% da alta da dívida pública federal em setembro
O peso dos juros aparece em todas as linhas do relatório. De janeiro a setembro, o Tesouro apropriou R$ 784,4 bilhões em juros. No mesmo período, resgatou R$ 36,5 bilhões a mais do que emitiu. Sem os juros, a dívida teria encolhido no ano.
Publicidade
O custo médio da dívida acumulado em 12 meses subiu de 12,59% para 12,63% ao ano entre agosto e setembro.
A composição explica a sensibilidade. Mais da metade da dívida, 51,60%, está atrelada à Selic. Outros 23,59% seguem índices de preços, 21,14% são prefixados e cerca de 3,7% acompanham o câmbio. Juro alto na economia vira, quase automaticamente, dívida maior para o Tesouro.
A parte interna (DPMFi) chegou a R$ 9,04 trilhões, alta de 1,04% no mês, e concentra 96,32% do total. A dívida externa recuou 0,82%, para R$ 345,41 bilhões.
Teto do próprio Tesouro fica mais perto
Em janeiro, o Plano Anual de Financiamento (PAF) de 2026 previu que a dívida terminaria o ano entre R$ 9,7 trilhões e R$ 10,3 trilhões. Com R$ 9,38 trilhões em setembro e a média de alta do ano acima de R$ 80 bilhões por mês, o estoque caminha para dentro dessa faixa no último trimestre.
Medida em proporção da economia, a dívida pública já está em 82,9% do PIB, mais de 11 pontos acima do patamar em que o governo Lula a recebeu.
Aliados de Lula traçam limites para o ajuste
Os números saem no momento em que o entorno do presidente fecha portas para um corte de gastos. O ministro Guilherme Boulos disse que “o tesouraço perdeu a eleição” e defendeu um ajuste restrito a corte de emendas parlamentares e de benefícios tributários.
O ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, foi além e negou que o tema esteja na mesa: “Esse assunto (ajuste fiscal) não foi discutido, e nem está sendo discutido”.
A Executiva Nacional do PT, em nota, afirmou que o ajuste não pode recair sobre os mais pobres. Um aperto nos parâmetros do arcabouço fiscal ainda é discutido dentro do governo, mas depende do aval de Lula.
Também não há definição sobre quem comandará o Ministério da Fazenda. Geraldo Alckmin e Rafael Fonteles são os nomes mais citados, mas Lula sinalizou que não vai decidir no curto prazo. O Citi avaliou que a indefinição gera incerteza e que o mercado vai julgar o escolhido pelas credenciais fiscais e pela independência em relação ao presidente.
Mercado já cobra a conta
Desde a eleição, a bolsa caiu, o dólar disparou e os juros futuros subiram. O mercado passou a apostar que o Banco Central não cortará a Selic na reunião da próxima quarta-feira, quando a maioria esperava redução de 0,25 ponto percentual.
Sem corte de juros, a principal engrenagem que fez a dívida saltar R$ 90 bilhões em setembro segue ligada. E, com mais da metade dos títulos presa à Selic, cada mês de juro alto sem ajuste no gasto empurra a dívida para o teto que o próprio Tesouro desenhou.
Publicidade





